
Na rua, os constantes
cheiros provindos de águas paradas e amontoados de lixo atropelam todas as impressões olfactivas já sentidas. No candongueiro, a
música no seu mais alto volume perturba qualquer tentativa de concentração ou de amainar o corrupio de pensamentos. No trabalho ou em casa, as insistentes e
ruidosas sirenes impedem qualquer momento de paz sonora.
Aqui tudo demora mais tempo, mas tudo parece correr entre o tempo.
O dia é curto, anoitece a partir das 17h30 mas
a noite parece ainda mais curta. Quando o amanhecer ocorre a partir das 5h30 e a hora de sair da cama está quase a acontecer, sente-se que o período dormido não foi suficiente para descansar da azáfama do dia anterior.
(Luanda não dorme. Luanda pausa entre os barulhos da noite e o raiar do sol.)
Se todo este alvoroço provoca em mim um estado de ansiedade persistente, o descobrir de cada ínfima parte das raízes, das histórias que na minha vida nunca tiveram lugar e as vivências calorosas com as gentes desta terra fazem de mim um ser extasiado.
É preciso é coragem para assegurar que a mente resta sã. E que cada momento de fim-de-semana entre bons companheiros de conversas, risos e danças, regados de um bom álcool, continuem a temperar todos os dissabores desta Luanda que todos querem e poucos aguentam.
Como disse Cesária Évora:
"Ess vida sabe qu'nhôs ta vivê
Parodia dia e note manché
Sem maca ma cu sabura
Angola, Angola
Oi qu'povo sabi
Ami nhos ca ta matam"